A obsessão por aparecer está fazendo as marcas esquecerem de ter algo a dizer.
Nunca se produziu tanto conteúdo — e nunca as marcas disseram tão pouco. Sobre a diferença entre presença e voz.
Toda semana alguém me pergunta quantos posts por semana a empresa precisa fazer. Ninguém me pergunta o que a empresa tem para dizer. A ordem das perguntas revela o problema: aprendemos a medir presença antes de medir voz. E presença sem voz é o que se vê hoje na maior parte dos perfis — um calendário cheio, uma marca vazia.
O mercado construiu uma verdade nova nos últimos anos: quem não aparece, não existe. Ela tem um fundo real. Mas virou, sem que ninguém decidisse, uma outra coisa: quem aparece, existe. E isso não é verdade. Aparecer é condição; não é conteúdo. Uma loja com a vitrine iluminada e as prateleiras vazias está presente. Só não tem nada para vender.
A pressa de publicar comeu o tempo de pensar
Entendo de onde vem a pressa. O algoritmo pune o silêncio, o concorrente publica todo dia, o consultor da vez diz que consistência é tudo. Então a empresa cria a rotina antes de criar a ideia. Contrata alguém para "alimentar" as redes — o verbo já diz muito. E o resultado é uma sequência de frases que poderiam estar em qualquer perfil do mesmo segmento: "qualidade e atendimento", "cuidamos de você", "o melhor para o seu negócio". Trocando o logo, nada muda. Se trocando o logo nada muda, a marca não disse nada.
Dentro da alummiô, vejo isso de perto. Quando uma empresa chega querendo "mais presença", a primeira coisa que faço não é abrir um calendário. É perguntar o que ela acredita que o mercado dela faz errado. A resposta demora. Às vezes não vem. E quase sempre é aí que está o conteúdo: no que a dona sabe e nunca escreveu, porque ninguém perguntou.
Se trocando o logo nada muda, a marca não disse nada.
Ter algo a dizer é uma decisão, não um talento
Ninguém nasce com posicionamento. Ele é o resultado de escolhas: o que a empresa faz e o que se recusa a fazer, quem ela quer atender e quem prefere deixar para o concorrente, o que considera bem feito e o que considera inaceitável. Cada uma dessas escolhas é uma frase. Uma empresa que escolheu tem o que dizer por anos. Uma que não escolheu precisa inventar um post por dia.
Isso explica por que tantas marcas se cansam do próprio conteúdo. Não é falta de criatividade. É que produzir sem ter escolhido é como falar sem ter pensado — funciona por uns minutos, depois se repete. E o público percebe antes de a marca perceber. A audiência que rola o feed não está procurando mais conteúdo; está procurando alguém que pareça saber o que está fazendo.
O que muda quando a ordem muda
Quando uma marca decide primeiro o que pensa e só depois quanto publica, acontecem três coisas. A frequência cai, porque dizer algo cansa mais do que preencher. A repetição aumenta, porque uma ideia boa merece ser dita de vários jeitos. E a resposta melhora, porque o cliente que chega já sabe por que escolheu — e o vendedor não precisa convencer, só confirmar.
Eu não sou contra aparecer. Sou jornalista, fundei uma agência, trabalho com presença digital todos os dias. Sou contra aparecer no lugar de dizer. A obsessão por estar em todos os canais, o tempo todo, com alguma coisa, está produzindo um mercado inteiro de marcas visíveis e inaudíveis. E a inversão é simples de descrever, embora difícil de praticar: antes de decidir onde aparecer, decida o que vale a pena ser ouvido. O resto — o canal, a frequência, o formato — é logística.
Jornalista e fundadora da alummiô, agência de comunicação e performance em São Paulo. Antes de escrever sobre negócios, tocou operações, cozinhas e crédito por quinze anos. Escreve o alummiando, o caderno da alummiô, sobre comunicação, comportamento e negócios. Quem escreve